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quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Análise Dogmática: O Artigo 275 e a Proteção da Incolumidade Pública

 

 


Análise Dogmática: O Artigo 275 e a Proteção da Incolumidade Pública





Fonte: Gemini AI





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Análise Dogmática: O Artigo 275 e a Proteção da Incolumidade Pública


O crime de Invólucro ou recipiente com falsa indicação, reformulado pela "Lei dos Remédios" (Lei nº 9.677/1998), situa-se no Título VIII da Parte Especial do Código Penal. Sua existência visa proteger não apenas o patrimônio do consumidor, mas primordialmente a saúde pública, sob a égide da segurança no consumo de produtos vitais.

1. Núcleo do Tipo e Conduta Comissiva

O verbo nuclear é inculcar, que no contexto jurídico-penal significa afirmar, apregoar, fazer crer ou imprimir falsamente. A conduta incide sobre a rotulagem ou acondicionamento (invólucro/recipiente). Diferente do estelionato comum, onde o foco é o prejuízo alheio para vantagem própria, aqui o legislador antecipa a tutela penal para o momento da falsidade ideológica sobre a composição do produto.

A falsidade pode ocorrer de duas formas:

  • Qualitativa: Afirmar a presença de substância inexistente.

  • Quantitativa: Indicar uma dosagem ou proporção maior do que a que realmente se encontra no conteúdo.

2. Objeto Material Específico

O tipo penal é restritivo quanto aos objetos sobre os quais a conduta recai:

  1. Produtos Alimentícios: Substâncias destinadas à nutrição humana.

  2. Produtos Terapêuticos ou Medicinais: Substâncias destinadas à cura, mitigação, tratamento ou prevenção de doenças.

Nota Técnica: Se a conduta envolver produtos de higiene ou cosméticos sem finalidade terapêutica, a tipificação pode se deslocar para crimes contra as relações de consumo (Lei 8.137/90) ou para o crime de estelionato (Art. 171 do CP), respeitando o princípio da especialidade.

3. Elementos Subjetivos e Consumação

O crime é estritamente doloso. O agente deve ter a vontade livre e consciente de induzir o consumidor a erro sobre a composição do produto. Não se exige, para a consumação, que o produto seja efetivamente consumido ou que cause dano à saúde de alguém; trata-se de um crime de perigo abstrato.

  • Consumação: Ocorre no momento em que o produto, com a indicação falsa, está pronto para a comercialização ou circulação, independentemente de ter havido a venda.

  • Tentativa: É admissível, por exemplo, se o agente é interrompido no momento em que imprimia os rótulos falsos para aplicá-los aos recipientes.

4. Distinção Crucial: Art. 275 vs. Art. 273

É fundamental não confundir o Art. 275 com o Art. 273 (Falsificação, corrupção, adulteração ou alteração de produto destinado a fins terapêuticos ou medicinais).

  • No Art. 273, a substância em si é alterada (corrompida ou falsificada), tornando-se nociva ou ineficaz.

  • No Art. 275, o produto pode ser intrinsecamente inofensivo ou até possuir qualidade, mas a informação contida no invólucro é mentirosa (ex: um suplemento de 500mg que contém apenas 100mg, ou um suco "sem açúcar" que contém sacarose).

5. Aspectos Processuais e Penais

Com a redação de 1998, a pena de 1 a 5 anos de reclusão retira o delito do âmbito dos Juizados Especiais Criminais (Lei 9.099/95), embora ainda comporte, em tese, a suspensão condicional do processo (Art. 89 da referida lei), desde que o réu preencha os requisitos subjetivos, já que a pena mínima é de 1 ano.

Tabela de Diferenciação Jurídica


Critério

Art. 275 (Falsa Indicação)

Art. 273 (Adulteração)

Foco

Informação/Rótulo (Inculcar)

Substância (Alterar/Corromper)

Bem Jurídico

Incolumidade Pública (Fé Pública)

Saúde Pública (Integridade Física)

Gravidade

Média (1 a 5 anos)

Altíssima (10 a 15 anos)

Exemplo

Menos vitamina do que o anunciado

Colocar gesso em vez de medicamento


Conclusão

O Artigo 275 funciona como uma sentinela da transparência no mercado de bens essenciais. Em um mundo onde a precisão farmacológica e nutricional é questão de sobrevivência — vide os casos de alérgicos ou pacientes crônicos dependentes de dosagens exatas — a "falsa indicação" deixa de ser uma mera infração administrativa para se consolidar como um ilícito penal de perigo relevante.




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MARTINS, Julio Cesar. Análise Dogmática: O Artigo 275 e a Proteção da Incolumidade Pública. 2026. Disponível em: https://www.profjuliomartins.com/ Acesso em: XX de XXXX de XXXX.


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