Dogmática Penal e a Nova Tipicidade do Art. 337-L do Código Penal
Dogmática Penal e a Nova Tipicidade do Art. 337-L do Código Penal
A promulgação da Lei nº 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações e Contratos Administrativos) promoveu uma profunda reformulação na tutela penal da Administração Pública. Ao revogar os antigos crimes previstos na Lei nº 8.666/1993 e transpor as condutas correlatas para o Código Penal (Título XI, Capítulo II-B), o legislador buscou unificar e conferir maior sistematicidade ao microssistema penal de proteção ao erário e à moralidade administrativa.
O artigo 337-L do Estatuto Repressivo criminaliza a conduta de fraudar, em prejuízo da Administração Pública, licitação ou contrato dela decorrente. Trata-se de um tipo penal complexo, pluriofensivo e de contornos marcadamente econômico-financeiros.
1. Elementos Estruturais do Tipo Penal
Objeto Jurídico e Proteção Espacial
O bem jurídico tutelado primário é a patrimonialidade pública, indissociável da moralidade administrativa e da isonomia de concorrência. Protege-se a integridade do certame e a escorreita execução do pacto firmado, garantindo que o Estado receba exatamente aquilo pelo qual despendeu recursos públicos.
Sujeitos do Delito
Sujeito Ativo: Trata-se de um crime comum quanto ao licitante ou contratado (particular). Contudo, admite a coautoria ou participação de agentes públicos (como pregoeiros, membros de comissão de contratação ou fiscais de contrato) por força do artigo 30 do Código Penal, desde que estes concorram para a fraude cientes da elementar do tipo.
Sujeito Passivo: É a Administração Pública direta, indireta, autárquica ou fundacional de qualquer dos Poderes da União, Estados, Distrito Federal e Municípios.
Elemento Subjetivo e a Exigência do Prejuízo
O tipo penal exige o dolo genérico de fraudar somado ao elemento normativo do tipo: "em prejuízo da Administração Pública". Não basta a mera irregularidade formal ou o descumprimento contratual civil/administrativo (mero inadimplemento). É imperativo que a conduta resulte em um dano econômico real, potencial ou na frustração da equivalência material das prestações.
2. Análise Detalhada dos Incisos: Núcleos e Condutas
O dispositivo opera por meio de uma tipicidade vinculada em seus quatro primeiros incisos, adotando uma cláusula de encerramento subsidiária no inciso V.
Inciso I – Disparidade Qualitativa ou Quantitativa
I - entrega de mercadoria ou prestação de serviços com qualidade ou em quantidade diversas das previstas no edital ou nos instrumentos contratuais;
Este inciso pune a quebra do princípio da vinculação ao instrumento convocatório e da proposta mais vantajosa. A fraude reside no ardil de fazer a Administração crer que está recebendo o objeto licitado quando, na realidade, entrega-se algo inferior (afronta à qualidade) ou em volume menor (afronta à quantidade). O núcleo é o descompasso doloso entre o faturado/pactuado e o efetivamente adimplido.
Inciso II – Comercialização de Bens Inservíveis ou Viciados
II - fornecimento, como verdadeira ou perfeita, de mercadoria falsificada, deteriorada, inservível para consumo ou com prazo de validade vencido;
A conduta aqui tangencia o crime de estelionato tradicional, mas com especialidade pela qualidade da vítima. O agente introduz no patrimônio público bens imprestáveis, ocultando o vício sob o manto de uma regularidade inexistente. Exemplo clássico ocorre no fornecimento de insumos hospitalares ou merenda escolar com prazos de validade adulterados ou em avançado estado de degradação.
Inciso III – Aliud pro Alio (Substituição de Objeto)
III - entrega de uma mercadoria por outra;
Configura o dolo de substituição integral do objeto (aliud pro alio). Diferencia-se do inciso I porque não há mera oscilação de qualidade, mas sim a entrega de um bem de natureza ou especificidade técnica completamente distinta do que foi licitado, valendo-se da fragilidade ou da conivência da fiscalização para auferir lucro ilícito.
Inciso IV – Alteração Posterior da Substância ou Medida
IV - alteração da substância, qualidade ou quantidade da mercadoria ou do serviço fornecido;
Enquanto os incisos anteriores focam no ato da entrega, o inciso IV pune a modificação espúria efetuada na dinâmica do fornecimento ou da execução contínua. Aplica-se com frequência em contratos de engenharia (v.g., diminuição da espessura da camada de asfalto prevista no projeto executivo) ou na alteração da densidade de insumos químicos contratados.
Inciso V – A Cláusula de Encerramento (Meio Fraudulento Genérico)
V - qualquer meio fraudulento que torne injustamente mais onerosa para a Administração Pública a proposta ou a execução do contrato;
Trata-se de uma norma penal em branco simétrica/cláusula de abertura, que consagra a analogia intra legem. O legislador reconhece a impossibilidade de prever todas as astúcias da criminalidade corporativa. Caberá à acusação demonstrar o nexo de causalidade entre o artifício ardiloso (meio fraudulento) e o encarecimento injustificado da proposta (na fase de licitação) ou do aditivo contratual (na fase de execução).
3. Aspectos Processuais, Concurso de Crimes e Resposta Penal
Consumação e Tentativa
O crime se consuma com a efetiva ocorrência do prejuízo à Administração Pública (crime material nos incisos I a IV), ou com o efetivo esvaziamento econômico causado pelo meio fraudulento (inciso V). A tentativa é perfeitamente admissível, por exemplo, quando a mercadoria falsificada é retida ou recusada pelo fiscal de contrato antes de ser integrada ao almoxarifado público.
A Gravidade da Resposta Penal
A pena de reclusão, de 4 a 8 anos, e multa reflete o rigor que o legislador de 2021 quis imprimir aos crimes de colarinho branco voltados contra o erário. Nota-se que:
Inaplicabilidade dos Juizados Especiais: A pena mínima (4 anos) impede a aplicação do benefício da suspensão condicional do processo (art. 89 da Lei nº 9.099/95).
Acordo de Não Persecução Penal (ANPP): Sendo a pena mínima superior a 4 anos, fica vedada a celebração de ANPP (art. 28-A do Código de Processo Penal), conferindo a este delito um rito de persecução penal prioritário e severo.
Distinção Crítica: Esfera Civil-Administrativa vs. Esfera Penal
É fundamental para o operador do direito não criminalizar o mero erro burocrático ou os atrasos logísticos decorrentes do risco ordinário de mercado. Para o desencadeamento da persecução criminal do Art. 337-L, a divergência contratual deve vir indissociável do animus fraudandi (intenção deliberada de enganar e lesar). Incompetência administrativa ou falhas operacionais sem má-fé resolvem-se estritamente no âmbito das sanções administrativas da Lei nº 14.133/2021 ou na Lei de Improbidade Administrativa (Lei nº 8.429/1992).
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